O lagarto que ajudou a transformar o tratamento do diabetes

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Pode parecer roteiro de ficção científica, mas um dos capítulos mais importantes da medicina metabólica começou com um lagarto peçonhento. O protagonista dessa história é o monstro-de-gila, ou Heloderma suspectum, espécie encontrada nas regiões desérticas dos Estados Unidos e do

Pode parecer roteiro de ficção científica, mas um dos capítulos mais importantes da medicina metabólica começou com um lagarto peçonhento.

O protagonista dessa história é o monstro-de-gila, ou Heloderma suspectum, espécie encontrada nas regiões desérticas dos Estados Unidos e do México.

Ao estudar sua secreção salivar, pesquisadores identificaram uma molécula chamada exendina-4. Ela apresentava uma ação semelhante à do GLP-1, hormônio produzido pelo intestino humano depois das refeições.

O GLP-1 participa do controle da glicose, estimula a liberação de insulina quando o açúcar no sangue aumenta, reduz a secreção de glucagon, retarda o esvaziamento do estômago e contribui para a sensação de saciedade. 

Havia, entretanto, um problema: o GLP-1 natural é degradado rapidamente pelo organismo. A exendina-4 demonstrou ser mais resistente e duradoura. A partir dela, cientistas desenvolveram a exenatida, aprovada em 2005 para o tratamento do diabetes tipo 2 e considerada um marco entre os agonistas do receptor de GLP-1. 

Décadas depois, essa área de pesquisa avançou até chegar a medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. A tirzepatida não deriva diretamente do lagarto, mas integra uma geração de tratamentos construída sobre o conhecimento das incretinas, atuando nos receptores de GLP-1 e GIP. 

E aquela história de que o monstro-de-gila come apenas algumas vezes por ano?

O animal realmente pode passar longos períodos sem se alimentar. Isso acontece porque consegue consumir grandes refeições, possui metabolismo baixo e armazena gordura no corpo e na cauda. A ciência, porém, não comprova que esse comportamento seja causado apenas pela exendina-4. 

Medicamentos como Mounjaro exigem prescrição e acompanhamento médico. A história científica não deve ser transformada em incentivo ao uso indiscriminado.

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