Espetáculo de Mark St. Germain, dirigido por Elias Andreato, ganha nova temporada no Teatro RioMar Fortaleza em setembro. Em cartaz há quatro anos, a peça promove um encontro imaginário entre Sigmund Freud e C.S. Lewis.
É possível conversar com inteligência quando duas pessoas enxergam o mundo de maneiras radicalmente diferentes? A pergunta, tão contemporânea quanto incômoda, atravessa “A Última Sessão de Freud”, espetáculo que retorna a Fortaleza para uma nova temporada no Teatro RioMar, de 4 a 6 de setembro de 2026.
Escrita pelo premiado dramaturgo norte-americano Mark St. Germain, a montagem reúne Odilon Wagner, no papel de Sigmund Freud, e Marcello Airoldi, como C.S. Lewis. Sob a direção de Elias Andreato, a peça está em cartaz desde 2022 e já soma mais de 420 apresentações, vistas por um público superior a 180 mil pessoas.
A trajetória do espetáculo foi construída, desde o início, com o patrocínio da Laranjinha Itaú.
O encontro que nunca aconteceu
No centro da narrativa está um encontro fictício entre dois dos intelectuais mais influentes do século XX. De um lado, Sigmund Freud, pai da psicanálise e crítico contundente da religião. Do outro, C.S. Lewis, professor de Oxford, escritor, ex-ateu e defensor de uma fé sustentada pela razão.
Dentro do gabinete de Freud, na Inglaterra de 1939, os dois iniciam uma discussão sobre a existência de Deus. Mas uma conversa assim, evidentemente, não se limita ao terreno religioso. O confronto avança sobre temas como o sentido da vida, a natureza humana, o sexo, a morte e as relações que construímos.
A dramaturgia foi inspirada no livro “Deus em Questão”, do psiquiatra e professor da Harvard Medical School Armand M. Nicholi Jr. Na peça, Freud tenta compreender como um intelectual brilhante e anteriormente ateu como Lewis teria se tornado um cristão convicto.
Não há respostas confortáveis. Há argumentos, provocações, ironia e, sobretudo, escuta. Cada personagem defende sua visão de mundo sem que o espetáculo determine quem está certo. A força da montagem está justamente nessa ausência de veredicto.
“Essa peça é um elogio ao diálogo, tão necessário em nossos tempos. Saio do teatro todos os dias mais convicto de que podemos e devemos conviver pacificamente com aqueles que pensam diferente de nós”, afirma Odilon Wagner.
Um debate sob a ameaça da guerra
Mark St. Germain situa o encontro no dia em que a Inglaterra entra na Segunda Guerra Mundial. Enquanto Freud e Lewis discutem Deus, a humanidade e a morte, Londres pode ser bombardeada a qualquer instante.
A guerra, portanto, não aparece apenas como um contexto histórico. Ela impõe urgência à conversa. São dois homens defendendo ideias no limite, enquanto o mundo ao redor ameaça sucumbir à intolerância e à violência.
O cenário de Fábio Namatame, indicado ao Prêmio Shell, reproduz o consultório de Freud na Inglaterra, país onde o psicanalista viveu após fugir da perseguição nazista na Áustria.
Na encenação, Elias Andreato escolhe colocar a palavra no centro. O texto conduz a ação, enquanto o embate entre crenças, dúvidas e visões de mundo sustenta a tensão dramática.
Para o diretor, o encontro imaginado por Mark St. Germain demonstra que diferenças profundas podem coexistir dentro de uma conversa inteligente, crítica e humana. Odilon constrói um Freud preciso e vulnerável, enquanto Marcello Airoldi injeta humor e leveza mesmo nos momentos em que o diálogo atravessa territórios densos e provocadores.
Uma peça sobre o nosso tempo
Embora ambientado em 1939, o espetáculo fala diretamente ao presente. Em uma sociedade marcada pela polarização e pela dificuldade de ouvir quem pensa diferente, Freud e Lewis fazem do desacordo um exercício de inteligência.
É justamente essa atualidade que ajuda a explicar a longevidade da montagem. Em vez de transformar o palco em tribunal, “A Última Sessão de Freud” oferece ao público algo cada vez mais raro: uma conversa em que ideias opostas podem se enfrentar sem que o outro precise ser eliminado.
Para Odilon Wagner, interpretar Freud tornou-se uma das experiências mais importantes de seus 56 anos de carreira. O ator destaca que as temporadas, as viagens pelo Brasil e os debates realizados em teatros e universidades confirmam a permanência do pensamento freudiano no século XXI.
Marcello Airoldi, por sua vez, observa que o sucesso da peça revela a existência de um público interessado em discussões que escapam da superficialidade. Uma plateia ainda disposta a encontrar no teatro humor, poesia, reflexão e bons personagens.
No fim, talvez Freud e Lewis não resolvam o impasse entre fé e razão. Nem precisam. O que permanece é a possibilidade de sustentar a dúvida, enfrentar o contraditório e reconhecer que uma boa conversa pode não mudar nossas convicções, mas certamente modifica a maneira como enxergamos o outro.
Serviço
A Última Sessão de Freud
Local: Teatro RioMar Fortaleza
Datas: 4, 5 e 6 de setembro de 2026
Horários: sexta-feira e sábado, às 20h; domingo, às 17h
Elenco: Odilon Wagner e Marcello Airoldi
Direção: Elias Andreato
Texto: Mark St. Germain
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