Governador recorre a ditado popular para questionar alianças do adversário, mas recebe como resposta uma fotografia ao lado de Bebeto do Choró
O governador Elmano de Freitas (PT) recorreu ao conhecido provérbio “Diz-me com quem andas e eu te direi quem és” para criticar Ciro Gomes (PSDB) e sua aproximação política com o grupo de Flávio Bolsonaro (PL). A tentativa de conferir densidade moral ao ataque, no entanto, esbarra em um equívoco elementar: a frase não pertence à Bíblia.
Se a intenção de Elmano era recorrer às Escrituras para constranger o adversário, a referência revela pouco domínio da própria narrativa cristã. Jesus escolheu Judas Iscariotes como um dos doze apóstolos, conviveu com ele e dividiu a última ceia ao seu lado. Evidentemente, essa convivência jamais tornou Cristo corresponsável pela traição que Judas cometeria posteriormente.
A resposta de Ciro veio por meio de uma fotografia em que Elmano aparece ao lado de Bebeto do Choró, ex-prefeito investigado por suspeitas de corrupção eleitoral e participação em organização criminosa, foragido desde dezembro de 2024. A imagem não comprova, isoladamente, qualquer envolvimento do governador com os fatos investigados, mas expõe a fragilidade da lógica utilizada por ele contra o adversário.
Se uma fotografia ou uma aproximação circunstancial bastasse para definir a identidade moral e política de alguém, o mesmo critério precisaria ser aplicado indistintamente. Foi justamente essa contradição que Ciro explorou ao devolver a provocação.
Na política, alianças devem ser examinadas com rigor, mas sem simplificações convenientes. Ciro já fez críticas públicas contundentes a Jair Bolsonaro e ao próprio bolsonarismo. O apoio de setores do PL no Ceará não apaga sua trajetória, tampouco autoriza reduzi-lo automaticamente às posições de Flávio Bolsonaro.
Ao escolher um ditado popular como instrumento de acusação e tratá-lo como uma espécie de sentença moral, Elmano abriu espaço para que seu próprio argumento se voltasse contra ele. Ciro não precisou recorrer a uma longa explicação. Bastou uma fotografia para revelar que, em política, máximas apressadas quase sempre cobram coerência de quem as pronuncia.






