Aos 89 anos, o homem que comandou a Fórmula 1 tornou-se pai novamente e colocou em xeque a ideia de que a vida precisa obedecer ao calendário social
Bernie Ecclestone passou boa parte da vida administrando velocidade, poder e cifras bilionárias. Comandou os bastidores da Fórmula 1, negociou interesses gigantescos e construiu uma das trajetórias mais controversas do automobilismo mundial. Mas foi longe das pistas, aos 89 anos, que protagonizou um dos capítulos mais surpreendentes de sua história.
Em julho de 2020, nasceu Ace, seu primeiro filho com a brasileira Fabiana Flosi. Ecclestone estava a poucos meses de completar 90 anos. O nascimento despertou curiosidade, críticas e uma pergunta que a sociedade insiste em responder pelos outros: existe idade certa para recomeçar?
Vivemos submetidos a um cronômetro invisível. Há uma idade estabelecida para casar, construir uma carreira, formar uma família, mudar de direção e, aparentemente, até para voltar a desejar alguma coisa. Quem escapa desse roteiro precisa explicar-se. Como se a vida fosse uma agenda coletiva e qualquer atraso representasse fracasso.
A paternidade de Ecclestone não deve ser romantizada nem transformada em fórmula universal. A idade importa. Impõe limites físicos, amplia responsabilidades e traz questionamentos legítimos sobre presença e futuro. Ignorar isso seria ingenuidade. Transformar o número em sentença, porém, seria igualmente precipitado.
Ser pai não depende apenas de vigor. Exige disponibilidade emocional, escuta, paciência e compromisso. A juventude oferece energia. A maturidade, quando bem vivida, pode oferecer perspectiva, serenidade e a consciência de que o tempo não deve ser desperdiçado.
Dono de uma fortuna estimada em bilhões, Ecclestone acumulou símbolos ostensivos de poder, entre eles o iate Force Blue. Durante décadas, também reuniu uma das coleções mais importantes de carros históricos da Fórmula 1. O acervo de 69 veículos foi vendido em 2025 ao empresário austríaco Mark Mateschitz, herdeiro da Red Bull, por um valor não revelado.
Mas nenhum patrimônio, por mais extraordinário que seja, compra vínculo, afeto ou tempo de qualidade. Essas riquezas exigem presença cotidiana e não aceitam procuração.
A história de Bernie Ecclestone não prova que a idade seja irrelevante. Prova algo mais interessante: ela é um dado, não um veredicto. Aos 89 anos, ele não venceu o tempo. Apenas se recusou a permitir que o calendário tivesse a palavra final.
E talvez esteja justamente aí a provocação: quantas pessoas desistem de começar não porque seja tarde, mas porque alguém decidiu, antes delas, que deveria ser?






